Medicina Antroposófica

Durante a evolução da humanidade a medicina passou por várias fases.

Voltando nossa atenção ao Egito Antigo, deparamo-nos com o médico-sacerdote, um iniciado nos centros de mistérios. De maneira geral não se tratava os pacientes com medicamentos, a não ser em casos especiais, tanto é que se realizavam cirurgias. Costumava-se levar os enfermos ao templo, onde eram induzidos a um estado de sono, diferente do nosso sono comum, controlado pelo sacerdote-médico. Durante esse sono o doente, além de sonhos caóticos, tinha visões, e o sacerdote conduzia as visões de modo a restabelecer a ordem e harmonia rompidas pela doença.

Na Grécia Antiga, inicialmente a medicina ainda era praticada nos centros de iniciação, sob a égide de Esculápio. Em seu sono no templo, o paciente sonhava com o medicamento que necessitava, e o médico sacerdote tinha a capacidade de observar esse sonho e assim saber qual era o remédio indicado. Desenvolveu-se um relacionamento bem maior com a natureza. Com Hipócrates (460 a.C.370 a.C.), o “pai da medicina ocidental”, ocorreu a transição da medicina dos centros de mistérios para a medicina apoiada totalmente na natureza, no mundo físico-sensório. Em Roma e na Idade Média ocorreu um desenvolvimento e aprofundamento do impulso hipocrático.

Já nos primeiros séculos cristãos surgiram no Oriente academias, nas quais houve um forte desenvolvimento da medicina, com a característica de ela se voltar unicamente ao âmbito físico. Ela era extremamente avançada em relação ao conhecimento existente no Ocidente, ainda fortemente imerso na tradição religiosa. Com as invasões mouras na Península Ibérica, esta medicina, que se voltava unicamente ao aspecto material, chegou à Europa.

Com o advento da Idade Moderna, principalmente nos séculos XVIII e XIX, ocorreram enormes avanços na medicina, por exemplo, na anatomia, fisiologia, na descoberta das primeiras leis da genética, na importância da higiene, nas primeiras vacinas etc. Notou-se que algumas enfermidades eram causadas por vírus e bactérias e procurou-se os medicamentos que pudessem combater esses agentes. Mais recentemente, com a engenharia genética, está se reduzindo tudo ao DNA e sua manipulação.

Em alguns meios esse gradual reducionismo começou a provocar uma reação: surgiram a medicina psicossomática, o holismo e mais recentemente as medicinas integrativas.

No início do século XX, como resposta aos anseios de alguns médicos e pacientes, Rudolf Steiner (1861-1925), o fundador da antroposofia, começou a dar palestras para médicos. A antroposofia procura compreender o ser humano como uma entidade global, como entidade físico-material, funcional, emocional e espiritual, além de relacioná-lo com os reinos da natureza e o universo. Nas palestras mencionadas, Steiner mostrou como por meio da ciência espiritual antroposófica é possível obter uma visão mais ampliada dos processos de adoecimento e cura, o que deu origem a uma nova farmacopeia, cujos medicamentos são obtidos da natureza, além de outras formas terapêuticas. Assim surgiu a medicina antroposófica, como uma ampliação da arte de curar.

Ela situa-se entre o academicismo materialista e tendências que atuam somente em esferas não físicas. Tem por base a antroposofia (ciência espiritual), procura conhecer a natureza e o universo (cosmo), não apenas seu lado físico-sensível, mas também as influências suprassensíveis. Ela procura relacionar os processos do ser humano (microcosmo) com os da natureza e do cosmo (macrocosmo).

Nesse contexto surgem perguntas importantes, entre elas: O que é saúde e o que é doença? Bactérias e vírus são a causa de doenças, ou eles possibilitam o surgimento da doença? Há um sentido nas enfermidades? Podemos aprender algo com as doenças? Elas podem provocar transformações importantes no paciente?

Além dos medicamentos preparados por meio de procedimentos específicos, a medicina antroposófica emprega uma grande variedade de atividades terapêuticas, como massagem rítmica, aplicações externas (compressas, enfaixamentos), hidroterapia, terapia artística (pintura, modelagem), euritmia terapêutica, psicologia, musicoterapia, quirofonética, aconselhamento biográfico, nutrição e dietética, entre outros.

Sonia Setzer
Médica

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